Segue abaixo um relato pessoal dos acontecimentos da noite do dia 19 de novembro, data de encerramento das urnas e apuração das eleições para o CAELL, o Centro Acadêmico dos Estudantes de Letras da USP. As opiniões que apresento aqui não são exatamente as opiniões da gestão atual (Olhos Livres) ou da gestão eleita (Veredas).
Havia a avaliação, por parte das seis chapas que concorriam ao pleito, de que a chapa Veredas, composta pela atual gestão do CAELL + novos membros, venceria as eleições com alguma margem de votos. Isto ficou confirmado na apuração, onde o resultado foi:
Veredas: 367 votos.
"Uma flor nasceu na rua" (PSTU): 168 votos
"Pra que poetas?" (MNN): 125 votos
"Estado de Exceção" (LERqi): 74 votos
"Quem quer ganhar um fusca marque um “X” ao lado": 71 votos
"Reconstruir o CAELL pela base: AJR e independentes" (PCO): 8 votos
Brancos e Nulos: 11
Total de votos: 824 (mais de 100 a mais que na eleição anterior)
Infelizmente nossa comemoração foi impossibilitada por uma ação bárbara articulada entre o PSTU e a LER-qi: Uma tentativa de linchamento de estudantes apoiadores da Veredas, membros da Veredas e também da chapa do Fusca, em nosso prédio, devido a dois acontecimentos, os quais descrevo a seguir: o primeiro deles aconteceu cerca de 40 minutos antes do término da apuração, quando foi puxado, por um estudante, um coro chamando uma integrante da chapa Uma Flor Nasceu na Rua!, militante do PSTU, de "gostosa". No momento dos gritos não houve reprovação por parte dos militantes do PSTU (membros da chapa deles para a Letras também gritaram, inclusive), nem da LER-qi. Obviamente discordamos de comentários deste tipo (sim, a militante do PSTU pareceu constrangida com aquilo) e acredito que ela tem todo o direito e dever de expressar seu desacordo. Mas discordo do uso de violência, da parte que viesse. Acrescenta-se a este fato um outro comentário machista, que ao que parece foi o estopim da ação truculenta daquelas militantes: Um estudante que não tinha relação com nenhuma chapa para o CAELL estava discutindo com militantes do PSTU e da LER-qi quando ouviu a frase “já tarde você já deveria estar na cama” e respondeu com uma irônica frase: “Vamos lá?".
Ainda durante a apuração, quando já estava clara a vitória da Veredas (tínhamos vantagem de 150 votos, crescendo), um grupo de militantes do PSTU sai da sala. Após alguns instantes, o militante que é liderança do PSTU na Letras volta e começa a apontar para pessoas, como que listando: A. (da chapa do fusca), aquele comprido (Y, que foi quem iniciou os gritos de "gostosa"), o D., da boina, o magrinho do CDIE e o L. (o que posteriormente falou o “vamos lá” a uma militante em fúria). Atenção à presença do último na lista, visto que este não havia participado das "manifestações machistas" dentro da sala.
Ao término da apuração a sala se dividiu claramente em duas partes, com provocações vindas de todos os lados. De um, o PSTU gritando palavras de ordem [daquelas vazias] contra a chapa eleita [nós]. Infelizmente os militantes da LER-qi (que haviam apresentado interesse em compor a chapa Veredas conosco antes do início do processo eleitoral e estavam bem próximos de nós) aderiram àqueles gritos, e afirmo que infelizmente porque não sei até que ponto eles pretendem/pretendiam "ser a oposição que vai governar no lugar de quem foi eleito" ou "comandar a gestão" ou "liderar o curso" [meu entendimento sobre as palavras de ordem do PSTU, claramente afirmando um total desrespeito ao resultado das urnas]. Com relação à LER-qi, espero que tenha sido o calor do momento. De outro lado, nós da Veredas comemorando com nossos amigos e extravasando toda a tensão do processo eleitoral, dos ataques, calúnias, injúrias, ameaças de agressão física (militante do PSTU, mais uma vez, pessoalmente contra mim e também contra mais uma pessoa de nossa chapa), machismo.
Eu, assim como diversas pessoas da Veredas, fiquei dentro da sala, esperando a poeira baixar, por consciência de que qualquer provocação naquele momento poderia se transformar em alguma coisa E PORQUE TÍNHAMOS VISTO a articulação dos militantes do PSTU, então notamos que algo poderia acontecer. Aconteceu. Com uma gritaria muito forte lá fora, barulho de vidro quebrado, saí da sala e deparei com membros da atual gestão do CAELL, da Veredas e apoiadores de nossa chapa tentando segurar uma massa de mulheres enfurecidas que procuravam adentrar o prédio. Olhei para dentro e vi algumas pessoas (contando, lembro de seis), dentre membros da Chapa do Fusca e apoiadores/amigos nossos. Fui tentar ajudar a segurar as mulheres, nesse momento fui agredido por diversas militantes do PSTU (desde o mais alto escalão da Juventude), por uma senhorinha hispânica (trabalhadora da Zanon que estava junto com a LER-qi, só deus sabe o que ela fazia na Letras), e também por militantes da LER-qi. Nesse momento já nos chamavam de também "machistas". Com a tensão crescendo, um amigo me carregou para dentro do prédio. O corredor que leva ao CAELL estava com a luz apagada, elas já vinham atrás de nós. Fui levado para o Espaço dos Estudantes (foi a decisão mais acertada, a do meu amigo). Lá estavam já algumas pessoas. Mais um membro da Veredas e um amigo apareceram, fechamos o portão de correr com as mãos. Nós dentro, elas fora.
Já lá embaixo, com elas enfurecidas na escada, foi afirmado diversas vezes pela líder das militantes do PSTU: "Estamos numa ação organizada, não vamos bater em ninguém. Entreguem seus celulares para a gente se certificar de que todos os vídeos foram apagados, então vamos montar um corredor e vocês vão sair. Queremos todos os celulares, de todos vocês". Tentamos argumentar diversas vezes, e ouvíamos como resposta: "não há diálogo com VOCÊS, não tem diálogo com MACHISTAS, entreguem seus celulares senão nós vamos entrar aí" [aqui a ameaça de agressão física já deixou de ser direcionada a quem havia chamado uma de gostosa ou feito algum comentário machista a outra. Todos nós estávamos em risco]. Uma militante da LER-qi, da Letras, gritou: "Então a Veredas vai proteger os machistas? Quem protege um machista é machista também, e a única coisa que um machista merece é apanhar pra aprender". Eu afirmei que 90% da Veredas estava fora dali e que nós não apoiávamos o machismo, nem a violência. Sob diversos gritos de "machistas", questionei as militantes da LER-qi e do PSTU: "Eu sou machista? Quem de vocês eu agredi? Há quanto tempo vocês me conhecem? Alguma vez agredi alguma mulher dentro desta faculdade?". Sem chance, o que ouvi em retorno foi: “Não há diálogo com machistas”, “se você não é machista, entregue os machistas para nós”, “cala a boca, machista”, dentre outros absurdos. Enquanto tínhamos nossa privacidade invadida através das buscas nos celulares, ao afirmar que não tínhamos gravações feitas e que aquilo era absurdo, fomos surpreendidos pela fala de uma militante “feminista”: "Tem vídeo sim, tem foto sim... Cadê o celular daquele viadinho [sic] do CDIE?". Triste e bizarra defesa “contra a opressão”. Em certo momento uma militante do PSTU, totalmente descontrolada, soltou o comentário que define a deprimente manifestação pseudo-feminista e o risco que sofríamos: "vocês vão apanhar e vão apanhar de um monte de mulheres gostosas.[sic]". Além disso, um estudante do primeiro ano de Letras foi ameaçado, também, sob desconfiança de ter filmado a ação: "Se algum vídeo disso aqui aparecer no youtube já saberemos quem procurar, melhor você apagar isso se não quiser apanhar".
A coisa se resolveu pouco depois da chegada da Guarda Universitária, que foi chamada pelos seguranças da Letras. Após ficar aproximadamente uma hora presos no Espaço dos Estudantes, vimos que a única solução seria mesmo correr o risco de apanhar e sair no meio delas, senão a Guarda poderia tentar intervir para que pudéssemos sair, o que resultaria, na prática, em uma crise muito grande, com prisões, sindicâncias ou processos administrativos (vocês devem imaginar). Claro, estávamos com muito medo, afinal, a USP é terra de ninguém e os estudantes estão acima de qualquer coisa, eles dizem. Não sabíamos o que esperar daquilo, fomos agredidos, ultrajados estávamos assustados e impressionados com a capacidade de construir ações impensadas sobre causas vazias que o PSTU tem. Ao sair dali debaixo, naquele corredor polonês, sob gritos e injúrias vindas de homens e mulheres do PSTU e da LER-qi, fomos insultados e agredidos fisicamente por elas. Subimos as escadas e parei por ali mesmo, não estava em condições de seguir o grupo.
Dessa noite tenho uma pequena luxação na base do indicador da mão esquerda, de segurar o portão do CAELL fechado, para garantir nossa integridade (o portão terá que ser consertado e foi feita ocorrência de depredação pelos seguranças da Letras, contra nossa vontade). Até onde sei não foram feitos Boletins de Ocorrência sobre o ocorrido. Estamos, enquanto gestão e enquanto chapa eleita, organizando atividades acerca da questão do machismo, da violência, vamos tentar aproveitar isso para trazer uma discussão sobre o que é, de fato, a defesa dos direitos da mulher. Vamos procurar, também, esclarecer ao conjunto dos estudantes que não, não defendemos o machismo, repudiamos qualquer ação machista, da mesma maneira que repudiamos a violência, ainda que na defesa contra a opressão. Não será com a violência que combateremos a opressão da mulher, do homossexual, do negro. Não é possível aceitar a criação de fatos políticos orquestrados claramente para estragar a comemoração da chapa vencedora para a Letras, uma ação forjada para colar-nos uma imagem de “machistas”. Não podemos nos calar perante o oportunismo e a violência. Não aceitaremos esse ultraje.
As opiniões que apresento aqui não são exatamente as opiniões da gestão atual (Olhos Livres) ou da gestão eleita (Veredas).
Fiquei muito triste com estes acontecimentos. Espero sinceramente que tenha sido a única vez que eu presencie algo assim, na Universidade e fora dela.
Fernando Penteado.